A banda “Casa das Máquinas” lança mais um single e revela nome do novo álbum.

Banda Casa das Máquinas por Leandro Almeida (Foto: Banda Casa das Máquinas por Leandro Almeida)

A lendária banda “Casa das Máquinas” disponibilizou nesta sexta-feira, 5, em todas as plataformas de música digital, mais um single de seu novo álbum. Brilho nos Olhos é a segunda música inédita que a banda apresenta após 44 anos sem gravar. A primeira foi “A Rua”, que também já está nos players via Monstro Discos.

Brilho nos Olhos é a faixa que dará nome ao novo álbum da banda, o primeiro só de composições novas desde Casa de Rock, lançado em 1976. A música é uma parceria de Mario Testoni (voz e teclados) com o guitarrista Cadu Moreira e surgiu de um bate-papo do tecladista com Ernst Kurt Clauss, direto da Irlanda.

Fundada em 1973, a Casa das Máquinas é uma das bandas mais importantes do hard rock e do progressivo nacional e até hoje é influência direta para muitas bandas do estilo. A banda encerrou as atividades em 1977 e retornou em 2007, mas somente agora a Casa prepara um disco totalmente inédito. Atualmente o grupo é formado por Testoni (voz e teclados) e Marinho (voz e bateria), membros das primeiras formações, além de Cadu Moreira (voz, guitarra e violão), Geraldo Vieira (voz e baixo) e Ivan Gonçalves (voz).

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(Fonte: Leonardo Razuk, Assessoria de Imprensa)
*** Canal do Rock, por Marcelo Vasconcelos. ***

“Gorgeous” é o primeiro single em inglês da banda paulista “Nitronica”.

Banda Nitronica por Adriano Sann.jpg
(Foto:Banda Nitronica por Adriano Sann)

A Banda de rock autoral paulista, Nitronica, lançou em abril “Gorgeous”, seu novo single. A banda formada em 2008 em Suzano/SP, já lançou um álbum e um EP, e desde 2016 sua formação conta com Kadu Sasso (Voz/Guitarra), Mia Ramos (Baixo), Fernando Tinajero (Guitarra) e Samuel Away (Bateria).

A banda tem como influências o Hard Rock setentista e o rock alternativo de bandas nacionais e internacionais dos anos 80 e 90, e nos últimos anos obteve reconhecimento internacional após o lançamento de duas canções em espanhol, em países como Chile, México, Colômbia e Argentina…

“Gorgeous” é o 1º single em inglês da banda e já está disponível em todas as plataformas de streaming, e ganhou um clipe muito legal em animação. Além do novo single, a banda se encontra em fase de criação e produção de composições inéditas que serão lançadas em forma de singles e no futuro farão parte de um novo álbum.

Veja o clipe do single “Gorgeous”.

Ouça “Gorgeous” em sua plataforma de streaming preferida.

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(Fonte: Samuel Away, Baterista da banda Nitronica)
*** Canal do Rock, por Marcelo Vasconcelos. ***

Mark Sandman e a banda Morphine: um adulto no rock alternativo dos anos 90

Mark Sandman e a banda Morphine
Um adulto no rock alternativo dos anos 90
(por Henrique Maranhão)

Banda Morphine nos anos 90, divulgação
(Foto:Banda Morphine nos anos 90 / divulgação)

Para começar a compreender a formação artística de Mark Sandman, podemos traçar um paralelo entre duas belas histórias de vida.
Primeiro, assim como Frank Sinatra, Sandman passou por aquela experiência comum da primeira metade do século XX – o momento em que o pai de família lhe dá duas opções: ou arrume um emprego ou siga seu rumo. Sandman escolheu a segunda opção. Mas diferente de Sinatra, que pegou sua mala e foi direto para Nova York bater em todas as possíveis portas de gravadoras, preferiu um caminho mais espiritual.
Muito parecido também com o caminho trilhado por Christopher McCandless, o jovem que inspirou o filme Na Natureza Selvagem, dirigido por Sean Penn, Sandman vagou por regiões diversas, inclusive chegou ao Alasca, trabalhando profissionalmente como pescador por um ano. Por volta de 1972, era cozinheiro num barco de pesca. Resolveu descer sentido América do Sul, até perder seu passaporte em Machu Picchu, no Peru. Onde arrumou um emprego relacionado a colher cogumelos e cultivar maconha.
Após ficar doente no Brasil, voltou para os EUA e começou a tocar em diversas bandas. Lançou três discos com seu grupo de blues chamado Treat Her Right. Inegavelmente, trataram muito bem o blues.
Em 1989, em Boston, Massachusetts, Sandman inovou em um processo de rock com jazz, em que ele cantava e tocava um baixo slide de apenas duas cordas, acompanhado de Dana Colley no sax barítono e do baterista Billy Conway: Eis a implacável formação do Morphine.

Best of Morphine

Não faço uma escolha racional quando decido escrever um artigo, também não pretendo me aprofundar nas ressalvas que tenho quanto a noção de livre-arbítrio. Meus padrões intuitivos, tanto na pesquisa quanto no próprio ato de escrever, são caminhos que desconheço. Quando faço uma analogia entre a jornada espiritual de McCandless e a busca por reconhecimento de Sinatra; sinto que Sandman, como uma antítese do rockstar, conseguiu transitar entre os dois caminhos: o completo desenvolvimento do espírito e o eterno reconhecimento do estilo em seu meio artístico.
Se o grande público ainda não deu o devido valor, isso se deve ao fato de que alguns nascem póstumos. Multidões estão conseguindo enxergar agora o brilho das estrelas que já se foram.
A década de 90 acabou dando espaço para diversas bandas classificadas como rock alternativo. Com o protagonismo da MTV, algumas dessas bandas foram alçadas ao patamar de celebridades mundiais e, em sua maioria, de maneira desproporcional ao talento dos músicos e qualidade das canções.
A fórmula básica era simples: quanto mais os produtores investiam para que um clipe passasse duzentas vezes por dia na emissora, mais o grupo se tornava comercial. Mark Sandman não estava desesperado por sucesso imediato, esse tipo de artista costuma buscar um legado de qualidade permanente.
Percebam o declínio na qualidade dos álbuns da maioria dos grandes nomes – gringos e nacionais – nas décadas de 80 e 90.
Não é o caso do Morphine.

Mesmo gostando de todos os trabalhos desde a formação do Treat Her Right; meu favorito é o The Night, quinto e último álbum de estúdio do Morphine, completado pouco antes da morte súbita de Mark Sandman, em 1999 e lançado em 2000. Fenômeno raro, quando na maioria dos casos os primeiros álbuns são considerados melhores.
Pensem num último álbum impecável. Rope on Fire nos remete à sonoridade do Oriente Médio, enquanto nossas silhuetas estão subindo uma corda em chamas. Souvenir é um sonho rodeado pelos sons do saxofone, ao estilo David Lynch, uma lembrança de nada.
A música tema do The Night é uma obra de arte. A poesia perfeita na melodia perfeita. Inclusive, Sandman costumava ser muito inspirado nas faixas temas. Like Swimming, por exemplo, é minha faixa favorita do quarto álbum e Cure for Pain é a pérola do segundo.
Caso você já tenha circulado pelos bastidores de grandes eventos musicais, provavelmente sentiu uma profunda decepção ao descobrir que seu ídolo não passava de um bebê chorão.
Falando da cena rock and roll dos anos 80/90, encontramos um oceano de pivetes iletrados, com suas bandas de garagem e suas roupas ridículas, convencidos de que seriam as maiores descobertas da indústria musical.
Sempre fui defensor do ego no meio artístico. Com certeza estamos falando de um dos meios onde se faz necessária uma crença surreal em si mesmo. Porém, é preciso dominar o ego, a fim de evitar papéis patéticos e vexames na carreira, vejam o caso Eddie Van Halen, por exemplo.
Uma das regras de Mark Sandman, desde os primórdios da sua banda de blues, era que nenhum dos músicos levassem aos shows mais instrumentos do que seriam capazes de carregar.

Se recusaram a interpretar a madame travestida, que desce de seu luxuoso automóvel, enquanto suas mucamas carregam seus equipamentos.
Josh Homme, produtor e fundador do grupo Queens of the Stone Age, definiu sua visão sobre Sandman: “Ele parecia um homem de verdade.”
O fato de Sandman estar exatamente onde deveria – tão ciente de suas capacidades ao ponto de construir seus instrumentos – sabendo que sua música era muito boa e seu público seletivo e excepcional (Ben Harper sabe muito bem do que estou falando) fazia com que sua figura fosse um mistério, um artista fora de contexto. Se não tivesse falecido precocemente, tendo uma parada cardíaca no palco, durante uma apresentação na Palestrina, numa fatalidade sem excessos, certamente hoje seria um dos músicos mais influentes do rock.

Vapors of Morphine

Vapors of Morphine por Lisa Deupree
(Foto: Vapors of Morphine por Lisa Deupree / Site: www.vaporsofmorphine.com)

A banda Vapors of Morphine foi fundada em 2009 pelos membros remanescentes do Morphine, com a intenção de manter a chama ou os vapores do incêndio que a breve passagem de Mark Sandman provocou.
Em 2014, se apresentaram no Largo da Batata, no bairro de Pinheiros, dentro da programação da 8ª edição do Mês da Cultura Independente.
No dia 20 de setembro de 2017, se apresentaram no Cine Joia, o show de abertura foi do quarteto paulistano Hierofante Púrpura, som psicodélico de altíssima qualidade. Fiquei sabendo dessa apresentação pouco depois de ter acontecido, mas pude ver Vapors of Morphine em pinheiros, além de acompanhar algumas sonoridades recentes.
Eles estão mantendo a pegada com dignidade, as duas vozes se encaixam perfeitamente como nos tempos de Sandman, o estilo vocal permanece intacto com algumas levadas instrumentais mais pro rock progressivo.
Outro detalhe de respeito ao legado de Sandman, além de buscarem uma “substituição” à altura, foi o cuidado com a mudança no nome da banda.
Vapors of Morphine não somente herdou a musicalidade, como também a classe e a grandeza de espírito.

 

Henrique Maranhão é roteirista, escritor e produtor musical.

 

Referências Bibliográficas

Cure for Pain – The Mark Sandman Story (2011).

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canal do Rock. **



Free Jazz: o som que nasceu do sangue nas ruas

Free Jazz: o som que nasceu do sangue nas ruas
(por Henrique Maranhão)

“Durmo sozinho, com algumas precauções: uma cadeira travando a porta, se alguém abrir a janela, uma corda derruba um vaso da penteadeira e eu acordo, debaixo do travesseiro está a pistola, e no lugar da minha mulher, um taco de beisebol.” Provavelmente você já viu cenas como essa em algum filme do Scorsese, mas eu garanto que esse estilo de vida era comum entre os músicos de jazz durante a década de 1960, principalmente os jazzistas de apoio, pouco conhecidos, esses costumavam andar em grupos para tocar nos clubes; corriam o risco de morrer todos os dias, pelas mãos da polícia, da Ku Klux Klan e outros bandos racistas. Tentativas de linchamento faziam parte da normalidade.

Após uma apurada audição de diversos discos, passei a concordar plenamente com Wu Ming 1, autor do brilhante New Thing: não da pra aguentar o cool.

Como o escritor define: “O noneto de Miles Davis pode ser, mas as coisas da Costa Oeste, Chet Baker… Dave Brubeck! Eu não via a hora que aquilo terminasse.” O free jazz surgiu no fim dos anos 50, se solidificando como estilo após se tornar título de um álbum de Ornette Coleman, mas para os autênticos arquitetos dessa nova onda, rótulos era coisa de branco. Eles criticavam até a palavra jazz, para eles era “a música” e ponto final.

Coltrane acabou com a raça do jazz nutella da Costa Oeste.

No trecho seguinte, veremos com exatidão como Wu Ming 1 detalha  o terreno em que estamos pisando.

A nova música, no início, era assim: o sax de Ornette e o trompete de Don Cherry eram os cães, seguravam a música pela guia. Prestando atenção, você ouvia o bop, ouvia Bird, Monk e Miles, e mais pra trás ouvia Duke com toda a Basin Street, o gospel das igrejas batistas, o blues do Delta, o pacto com o diabo de Robert Johnson, os respingos de saliva da gaita de Sonny Boy… Mais pra trás ainda, você houvia a escravidão, o último rufar do tambor antes que o seu antepassado fosse jogado num navio, ouvia os pretos putos da vida…

1957 é o ano do “despertar espiritual” de John Coltrane, ele acaba se afundando na heroína e é expulso da banda por Miles Davis. Coltrane decide encarar a abstinência trancado em um quarto na Filadélfia. Depois vai para Nova York, grava com Thelonious Monk e começa a tocar no Five Spot.

Claro que o processo de desintoxicação é bem demorado. Já passei por cinco internações e posso afirmar: um processo de reconstrução humana e artística é bem demorado. Coltrane foi rápido e forte o suficiente para em 1965 se tornar um deus. Com A Love Supreme, o cara ganhou uma enxurrada de prêmios: disco do ano; melhor sax tenor do ano; jazzista do ano e a porra toda. Wu Ming 1 recorda que “na conceituada revista Chronicler, recebeu até o primeiro lugar entre os ‘maratonistas do jazz’, conseguindo tocar dez horas sem parar.”

(Trailer do documentário “Chasing Trane: The John Coltrane Documentary”, escrito e dirigido por John Scheinfeld)

Estamos falando de grandes nomes, mas é preciso ressaltar que muitos outros possíveis grandes nomes, músicos brilhantes, os melhores pianistas em atividade viveram e morreram completamente fodidos. Discriminados por serem negros e explorados como artistas. E mesmo os maiores nomes ainda estão renegados, sem nenhuma memória na história, por exemplo, do cinema americano. O filme sobre Johnny Cash ganhou um Oscar, mas alguém aqui já ouviu falar ou assistiu uma merecida produção cinematográfica sobre Billie Holiday, Duke Ellington ou Count Basie?

Obviamente você já percebeu que este texto não reproduz a famigerada narrativa de vitimização, muito menos de lacração. Estou estancando o sangue de um dos estilos mais marginalizados na indústria musical.

Faço questão de situar este artigo em alguns acontecimentos históricos:

Em um período bem próximo no espaço-tempo, Miles Davis estava tomando porrada de policiais brancos na entrada de um clube. Muhammad Ali se recusava a ir pro Vietnã e Martin Luther King fazia seu famoso discurso contra a guerra em uma igreja no Harlem…

Em determinado momento, na Califórnia, Huey P. Newton e Bobby Seale fundavam o Black Panther Party, com um programa que incluía autodefesa contra a brutalidade da polícia, emprego, moradias decentes e alimentação para as comunidades negras completamente à margem do Estado.

Em 1969, o chefe do FBI, J. Edgar Hoover declara ao New York Times que os Panteras Negras são “a maior ameaça à segurança interna do país”. Quando entra em ação um programa do governo chamado Cointelpro (Counterintelligence Program), que havia sido montado nos anos 50 pra neutralizar o Partido Comunista, depois foi usado contra a Nova Esquerda e teve seu auge contra os movimentos negros pelos direitos civis.

Com a prisão das principais lideranças do Panteras, estouram revoltas nos guetos negros de todo o país. Nesse período morrem John Coltrane, Otis Redding, entre outros. O número de ativistas negros mortos pelos racistas já era consideravelmente alto antes que o FBI começasse matar.

Infiltraram agentes em todos os principais grupos de resistência. Um dos guarda-costas de Malcolm X era agente infiltrado. Havia tantos agentes disfarçados em tantos movimentos, que era comum um agente do governo assassinar outro agente sem saber que estavam do mesmo lado. Parece roteiro do Tarantino, mas a vasta documentação do Cointelpro está mais para a imaginação de Stephen King ou dos principais roteiristas de terror.

Onde entra o fascismo nessa história? Fascismo representa uma luta contra o caos. Eles buscam a ordem em tudo, inclusive nas artes. Sempre tentaram deter gente como Coltrane e outros artistas considerados subversivos.

Talvez nos dias atuais, onde a vigilância e o controle social ganharam contornos de ficção científica e racistas voltaram a desfilar imponentes nas ruas – existam artistas, jornalistas, ativistas dormindo com uma cadeira travando a porta; se alguém tentar abrir a janela, um sensor de movimento do Iphone dispara um alarme; debaixo do travesseiro uma pistola; e no lugar da mulher, a certeza de ter feito Backup e dos dados estarem em segurança. Quando a privacidade é hackeada , transformamos travesseiros em nuvens.

 

A fusão definitiva para além do Jazz

 

Em agosto de 1969, Miles Davis reuniu um grupo muito talentoso de músicos e decidiu unir o jazz a elementos africanos, como o blues, o funk e um certo tempero latino. Assim nasceu um dos discos mais influentes e polêmicos da história da música. Bitches Brew (que alcançou o top 10 norte-americano vendendo mais de 500 mil cópias) seria responsável pelo nascimento de um novo estilo de jazz, o fusion, que acabou se tornando uma das principais influências do rock progressivo da primeira metade da década de 1970.

Atualmente, Iggy Pop revelou uma lista com os 12 álbuns mais importantes e influentes em sua extensa carreira musical, um dos maiores ícones do rock citou The Complete Hot Five and Hot Seven Recordings, Vol. 1 de Louis Armstrong e The Heavyweight Champion de John Coltrane.

Poderia me estender com inúmeras histórias de como esses visionários do jazz foram fundamentais nos trabalhos de grandes personalidades. Poderia falar da brilhante parceria de Ornette Coleman com William S. Burroughs, na composição da trilha do filme inspirado no clássico Naked Lunch (Grove Press, 1959).


(Ornette Coleman, William S.Burroughs & Brion Gysin (1983)

Quem, assim como eu, teve o prazer de ouvir e até mesmo tocar com Lanny Gordin, sabe muito bem que seu experimentalismo na guitarra tem fortes influências jazzísticas e progressivas. Gordin é considerado um mestre pelos maiores guitarristas do rock nacional. Se eu for escrever sobre todos os álbuns de artistas em que ele tocou e produziu, esse texto não vai ter fim.

Quando lembro das vezes em que assisti esses arquitetos da MPB tocando em bares esfumaçados, Lanny Gordin tocando no antigo Teta Jazz Bar, em Pinheiros, a sensação que se tem é que quem domina o jazz pode produzir um grande álbum de qualquer estilo musical. Quem tiver interesse em saber como está a produção artística atual de Lanny Gordin, recomendo o documentário Inaudito, dirigido por Gregorio Gananian.

Quem, assim como eu, teve o prazer de ouvir o baterista Gigante Brasil, principalmente na fase final de sua carreia, quando tocava no Ventania Bar, em Moema, sabe muito bem que, além de ser um dos principais nomes do movimento Vanguarda Paulista, estamos falando de um baterista de Jazz completamente raíz que tocou com grandes nomes da MPB: recebeu uma enorme exposição ao participar do disco e dos shows do álbum Mais, um dos melhores trabalhos de Marisa Monte. Sobre seu talento, a revista Rolling Stone Brasil declarou: “Preciso, ele era certeza de uma cozinha perfeita em qualquer show e disco que participasse: tinha ‘trovões nas mãos’ e segurava perfeitamente tanto uma sessão de improviso ou quando fornecia a leve cama para o brilho de um intérprete.”

Meu amigo e parceiro de composições Sander Mecca, teve a ousadia de registrar uma versão da música No Quarter, do Led Zeppelin, dividindo o palco com Gigante Brasil e seu grupo Abandonada. Uma preciosa fusão de rock com jazz que você pode encontrar no youtube.

Nos créditos finais de New Thing, referência para a pesquisa deste artigo, o autor Wu Ming 1 descreve uma breve homenagem aos dois livros que foram suas principais inspirações. Ficou encantado com a maneira como foi escrito Please Kill Me: The Uncensored Oral History of Punk, De Legs McNeil e Gillian McCain (Grove Press, New York, 1996). E também Gauleses Irredutíveis. Causos e Atitudes do Rock Gaúcho, de Alisson Ávila, Cristiano Bastos e Eduardo Müller (SagraLuzzatto, Porto Alegre, 2001). Agradecendo aos três autores por terem-no acompanhado em paseios, mostrando a cena rock and roll do Rio Grande do Sul.

 

Henrique Maranhão é roteirista, escritor e produtor musical.

 

Referências Bibliográficas

WU MING 1. New Thing. Conrad Editora, 2008.

 
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canal do Rock. **



Último Homem em Pé – Jerry Lee Lewis: O selvagem da época de ouro do Rock.

Último Homem em Pé
Jerry Lee Lewis: O selvagem da época de ouro do Rock
(por Henrique Maranhão)

JerryLee Lewis 1973
(Jerry Lee Lewis, 1973, por Klaus Hiltscher, Permissão CC-BY-SA)

“O telefone branco na cabeceira da cama de Elvis tocava. Sua face escura se iluminou, 3h07. Sob a hora, em linhas menores, estava a data, 23 de novembro de 1976. Ele atendeu. Era Robert Loyd, um segurança de Graceland, chamando de um posto de guarda lá embaixo. Problemas.” Assim Nick Tosches inicia uma série de acontecimentos insanos em seu livro Criaturas Flamejantes.

No portão de Graceland, estava Jerry Lee Lewis em seu Lincoln Continental 1976. Portava seu revólver calibre 38. Ignore-o, disse Elvis Presley. Sem dúvidas, uma das decisões mais coerentes que tomou em vida. Jerry Lee foi preso e libertado após pagar fiança de US$ 250. Depois dessa prisão no portão de Graceland, disse a um repórter que lamentava quando a imprensa tratava Elvis como realeza e ele como lixo branco.

Em 29 de setembro de 1976, seu aniversário de 41 anos, Jerry Lee atirou no peito de seu baixista, Norman “Butch” Owens, com uma Magnum 357. Owens sobreviveu e Jerry Lee disse à polícia que pensou que a arma estivesse descarregada. Até 1975, manteve um escritório em Memphis: Jerry Lee Lewis Enterprises Inc; quando em uma noite ele fez 25 buracos de bala na porta de seu escritório com uma 45 automática e foi convidado a se retirar.

Jerry Lee foi responsável pelos dois maiores sucessos da história da Sun Records: Whole Lotta Shakin´Goin´On foi gravada no início de 1957 e lançada em 15 de abril em seu segundo disco. No dia 31 de agosto, chegou ao topo tanto da parada country como da R&B e em setembro chegou ao segundo lugar nas paradas pop. O disco vendeu 6 milhões de cópias pelo mundo. Jerry Lee cantou no American Bandstand; Dick Clarck lembra que ele foi o único convidado que não quis fazer dublagem. “Quando você está fazendo amor, não dá pra voltar e refazer.” Afirma Jerry Lee.

Gravada em 1957 e lançada no dia 3 de novembro, Great Balls of Fire chegou ao auge em janeiro de 1958, quando foi ao topo da parada country, ao segundo lugar na parada pop, ao quinto na de R&B e ao primeiro das paradas britânicas. Em 1958, Jerry Lee Lewis estava no auge. “Ele equilibrou as coisas em Memphis. Tornou Elvis aceitável. Jerry Lee sempre fazia merda. Sempre houve uma aura de violência extrema a sua volta. É o maior estilista na música country.” Dispara Nick Tosches.

John Lennon apareceu no camarim de Jerry Lee no Roxy de Los Angeles; ajoelhou-se e beijou seus pés. Jerry Lee olhou para ver se o brilho do sapato havia sido ofuscado pelo beijo de um menino completamente embriagado de inspirações.

A queda aconteceu em 1958. Chegando na inglaterra, uma tempestade midiática gritava que sua esposa, Myra Gail, era também sua prima de 13 anos. Sua turnê, que incluía apresentações em 27 teatros, acabou sendo cancelada. O casamento de Jerry Lee e Myra Gail durou mais do que o esperado. Se divorciaram em 1970. Ao se divorciar, Myra testemunhou que seu casamento era “um pesadelo”. Jerry Lee foi alertado judicialmente a não mais “ameaçar” sua prima, na época com 26 anos.

Desde o início, Jerry Lee exigia fechar todas as apresentações em que aparecia. Em 1958, Alan Freed insistiu que Lewis tocasse antes de Chuck Berry em um show. Até hoje falam daquele show, de como Jerry Lee fez o público se atirar no palco, de como ele tirou do bolso do casaco uma garrafa de Coca-Cola cheia de líquido inflamável e derramou sobre o piano com uma mão enquanto a outra martelava Whole Lotta Shakin´Goin´On, de como Jerry Lee entrou no camarim pisando firme após incendiar o piano, fedendo fluido de isqueiro e fúria, virou para Chuck Berry e disse calmamente, ao som da molecada gritando para que o palco tremesse novamente: “Continua daí, parceiro”.

Podemos nos sentar confortavelmente na sacada de nossas casas, oferecer um brinde as estrelas, enquanto escutamos os artistas que nos encantam. Acontece que quando uma grande bola de fogo atinge a terra, é impossível sair ileso. Esse tipo de fenômeno está cada vez mais raro. Assim como a lei desenvolve ferramentas, afim de apertar o cerco e evitar que novos casais vaguem pelas estradas ao estilo Bonnie e Clyde. A indústria do entretenimento também desenvolve suas ferramentas, para evitar que uma grande e descontrolada bola de fogo incendeie os corações dos jovens. Por favor, não me confundam: sou um iconoclasta. Não morro de amor incondicional por nenhuma “santidade” e não defendo reis imaginários. Estou sempre pronto para derrubar ídolos, mas quando o assunto é Jerry Lee Lewis, procuro preservar meu martelo. Até porque, não se combate um fogo a marteladas. Também me reservo o direito de não chamar os bombeiros quando se trata de um incêndio tão bonito.

 

Henrique Maranhão é roteirista, escritor e produtor musical.

 

Referências Bibliográficas

TOSCHES, Nick. Criaturas Flamejantes. Conrad Editora, 2006.

TOSCHES, Nick. Hellfire: The Jerry Lee Lewis Story. Norton Books, 1982.

 
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canal do Rock. **



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