Leonard Cohen: Agradeço pela dança

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(por Henrique Maranhão)

Em algum lugar, entre minha iluminada infância e as paixões da juventude, encontrei canções de Leonard Cohen. Estavam na trilha de um filme de Oliver Stone, acabei comprando a trilha apenas para ouvir suas músicas. Mais tarde, enquanto trabalhava na tradicional locadora 2001, reencontrei Cohen em diversos longas da minha pesquisa cinematográfica, como em Onde os homens são homens (1971), de Robert Altman; em Caro Diário (1993), Nanni Moretti, um dos meus preferidos entre os diretores italianos, utiliza muito bem a música de Cohen no contexto da história; outro cineasta fundamental em meu encantamento pelo cinema, o alemão Werner Herzog, nos brinda com Cohen na produção experimental Fata Morgana (1971).

Apenas alguns exemplos de que Leonard Cohen passeia por trilhas de diretores consagrados em diversos países e há muito tempo. Podemos encontrá-lo inclusive em produções atuais, alternativas e comerciais, como em A Espera (2015), do diretor Piero Messina (um som de Cohen com o olhar de Juliette Binoche, dificilmente vai desagradar); e também podemos encontrar um dos seus maiores hits na animação Shrek (2001).

Suas poesias sempre estiveram relacionadas a imagens que, ao mesmo tempo marcantes, vão se desfazendo lentamente. Como declarações feitas na areia da praia, cartas apaixonadas despedaçadas pelo instinto do esquecimento ou como amantes desenhando em vidraças embaçadas nos chuveiros. Uma força que muda sua direção e ao mesmo tempo se despede, não deixando rastros para um possível retorno de si mesmo.

Comecei a escrever e compor muito cedo, devido à mais bela escritora que me iniciou nas letras e nas canções; também devo à sensibilidade de minha mãe o fato de que mulheres estejam sendo excepcionalmente gentis à minha velhice.

Sempre que assisto o clipe da faixa Because Of, do inacreditável álbum Dear Heather, lembro das meninas, pulando de calcinha e sutiã em cima da cama do hotel, enquanto eu me entorpecia. Como no relato de Cohen, embora de maneira diferente:

“Elas faziam um lugar secreto em suas vidas ocupadas e ficavam
nuas, então se curvavam sobre a cama e me cobriam, como um
bebê que tremia.”

Fotos: Leonard Cohen (Facebook)
Cohen foi homenageado por diversos artistas.

Destaco a versão do R.E.M. para First we take Manhattan, uma sombria melodia ao estilo das trilhas de Ridley Scott nos anos 80; Joe Cocker também fez uma boa versão dessa faixa, além de regravar Bird on a Wire.

Não sou um apreciador do U2, mas como eles gravaram Tower of Song com o próprio Cohen, merecem ser citados entre as grandes regravações.

Nick Cave assumiu sua religiosidade fazendo várias versões, inclusive um ótimo cover de Suzanne; mas ainda prefiro na voz de Nina Simone, que conseguiu dar o swing perfeito a uma canção extremamente melancólica.

Roberta Flack fez uma versão brilhante de Hey, That’s No Way To Say Goodbye. A regravação instrumental de Anna Calvi para Joan of Arc é belíssima, temos Pixies interpretando I can’t forget. Lover Lover Lover na voz de Ian McCulloch, vocalista do Echo & the Bunnymen, e claro, a excepcional versão de My Secret Life por Eric Burdon, numa levada que lembra as melhores canções de Van Morrison. O alcance de Cohen atravessa diversas gerações de artistas.

Muito antes de Jeff Buckley tornar Hallelujah popular, a faixa já havia conquistado o coração de Bob Dylan. Embora Dylan tenha afirmado que “suas canções cada vez se parecem mais com orações”, ainda não ouvi poesia mais profana que The Future; temos uma versão folk de Teddy Thompson, com metais precisos e vocal honesto, mas ainda prefiro Erlend Ropstad & The Salmon Smokers, em um tributo de altíssima qualidade, de 2017, que também teve uma linda interpretação da jovem Aurora para Famous Blue Raincoat, letra maravilhosa em forma de carta assinada no fim da canção, que também foi muito bem regravada por Tori Amos.

Escrevo esse texto em quarentena, estamos em 2020. Muitas lives e pouca poesia. Não posso perder as lives do meu guitarrista vivo favorito, David Gilmour, um dos gênios do Pink Floyd. Enquanto Gilmour divulga as poesias de sua mulher Polly Samson, percebo que ele não toca músicas próprias, apenas Cohen em voz e violão. Se existem casamentos perfeitos entre poesia e melodia, um dos seus expoentes se chama Leonard Cohen.

Estamos falando de um canadense, nascido em 21 de Setembro de 1934, numa família judaica, que resolveu se dedicar à música após os 30 anos, quando já era um escritor consagrado. Quando pensamos em imagens que, ao mesmo tempo marcantes, vão se desfazendo lentamente, podemos incluir datas e noções de tempo. As marcas deixadas pela poesia de Cohen em minha construção artística são mais antigas do que posso recordar.

Quanto mais amadureço mais minhas composições ganham contornos de Cohen, tanto melodicamente quando na estrutura poética. Quando encontro palavras que definem as nuances das minhas experiências, descubro canções dele com melhores traduções. Death of a Ladies’ Man, lançado em 1977, é simplesmente uma obra de arte. Com faixas que lembram os clássicos de Dean Martin, é o disco perfeito para afastar pensamentos negativos em finais de ano solitários, nenhuma das musicas te deixa pra baixo.

Consegue encostar a orelha contra as finas paredes do hotel, escutar a mulher amada com outro e não enlouquecer de ciúmes, pelo contrário, ser capaz de tirar um fardo de sua alma ao ouvir que o amor está completamente fora do seu controle. E na próxima música estar dançando com uma garota loira e alta no canto mais escuro do ginásio, encharcados de balões e serpentinas, pensando que em momentos solenes como esse é preciso colocar a sua verdade e toda sua fé para ver o corpo dela nu.

Iodine é a grande faixa do álbum Death of a Ladies’ Man, com metais perfeitos que te enchem de esperança; mesmo quando os beijos, toques e tudo em um relacionamento está tomado por chamas de iodo.

Foto: Capa do álbum Death of a Ladies’ Man – Eva LaPierre, Leonard Cohen e Suzanne Elrod

Poderíamos analisar o impacto, tanto na vida quanto na obra, quando se é criado em uma casa de mulheres; isso aliado ao fato de que na escola de Cohen, meninos e meninas ficavam em partes separadas, sem qualquer tipo de interação.

Tanto que Cohen era visto por amigos como um cara sortudo por viver em uma casa com a mãe e a irmã, enquanto grande parte dos meninos reclamava da falta de mulheres, Cohen possuía essa “vantagem” e era considerado o cara um pouco avançado nos conhecimentos sobre os mistérios femininos.

No início da adolescência, Cohen adquiriu profundo interesse pela hipnose, chegando a estudar um livro com diversas técnicas sobre o tema. Mais tarde, confessou que utilizou a empregada como primeira cobaia e, através do transe, fez com que ela tirasse a roupa. Se ela tirou por hipnose ou porque quis, jamais saberemos. Mas temos um pequeno registro de onde começou a surgir sua voz calma e pausada, onde em muitas faixas acaba soletrando sílaba por sílaba, buscando levar o ouvinte a um determinado tipo de transe, podemos definir sua música como um jogo de sedução.

A maioria dos nossos artistas favoritos, quando vistos de perto, revelam-nos falhas e, muitas vezes, um caráter conflitante. Com relação a Leornard Cohen não podia ser diferente. Mesmo fazendo parte da trilha sonora da minha vida, faço questão de trazer à luz um momento obscuro em sua carreira.

Em 1994, chegando ao auge de sua aproximação com o budismo, Cohen passa a viver no mosteiro de Mount Baldy Zen Center, próximo de Los Angeles. Em 1996, ganhou o status de monge zen, e ganharia o nome Dharma de Jikan, significado de “silêncioso”. Como todo monge budista, Cohen sempre soube o valor do silêncio para que as palavras e a música soem com perfeição.




Resolveu abandonar a sociedade para se tornar monge, afinal, possuía uma bela fortuna estimada nas cifras do milhões de dólares. Acontece que uma amante com quem Cohen manteve relações por décadas, e que acabou ocupando o posto de sua contadora, resolveu roubar sua fortuna e desaparecer do mapa. Não temos todos os detalhes do porque ela resolveu fazer isso, mas estando completamente falido, se viu obrigado a retomar a carreira; pra mim, o ponto negativo foi que ele voltou aos palcos por necessidades financeiras, enquanto sua assessoria de imprensa declarava que era por amor ao público e saudades de fazer shows.

Isso nos mostra uma lição muito importante:

Na esmagadora maioria, todas essas grandes bandas que aprendemos a admirar, quando anunciam suas voltas retumbantes, a questão principal é sempre financeira. São músicos que não aguentam mais olhar pra cara uns dos outros.

Esperava que Cohen admitisse o motivo real de sua volta aos palcos, acontece que a indústria musical não funciona de maneira honesta e o público é visto por eles como palhaços necessitados de produtos e ícones. Como não posso deixar escapar minha marca de derrubar ídolos, digo que tanto o público quanto os artistas não passam de palhaços nas mãos invisíveis de quem comanda os bastidores do circo.

Claro que esta pequena “mancha” não diminuiu minha admiração pelo trabalho de Cohen. Em uma sociedade onde temos mais ídolos do que realidades, faz-se cada vez mais necessário saber separar as coisas, principalmente a vida pessoal da obra. Dear, Leonard. Sei muito bem que você partiu realizado, sei também que muitos artistas se realizaram e estão se realizando inspirados em seu talento. Não tenho mais palavras, apenas, agradeço pela dança.

 

Foto: Leonard Cohen (Facebook)

Atrás das linhas inimigas de meu amor

O poeta curitibano Fernando Koproski reuniu uma seleção de poemas de Cohen, com traduções impecáveis em seu livro Atrás das linhas inimigas de meu amor. Uma bela homenagem com direito a uma poesia do autor dedicada a Leonard Cohen. Koproski tem outros livros com seleções e traduções de poemas, também livros com poesias próprias.

Não posso deixar de indicar algumas canções, tanto de seu último álbum You Want it Darker como do póstumo Thanks For The Dance, finalizado por músicos fãs de seu trabalho e com produção de seu filho Adam Cohen.

No auge de seu amadurecimento, alcançou outro patamar em poesias musicadas de forma impressionante. Na verdade não vou selecionar faixas dos dois últimos álbuns porque todas merecem ser ouvidas. As que mais tenho ouvido são Happens tho the heart, You Want it Darker, The Hills e Steer Your Way, essa última, a faixa recente que melhor define duas das características que mais admiro em sua música: a marcação do violino e um trabalho de backing vocals sofisticado e diferenciado.

 

Henrique Maranhão é roteirista, escritor e produtor musical.

 

Referências Bibliográficas
SIMMONS, Sylvie. I´m Your Man. Editora Best Seller Ltda, 2016.
KOPROSKI, Fernando. Atrás das linhas inimigas de meu amor. Viveiros de Castro Editora Ltda, 2016.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canal do Rock. **
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Mark Sandman e a banda Morphine: um adulto no rock alternativo dos anos 90

Mark Sandman e a banda Morphine
Um adulto no rock alternativo dos anos 90
(por Henrique Maranhão)

Banda Morphine nos anos 90, divulgação
(Foto:Banda Morphine nos anos 90 / divulgação)

Para começar a compreender a formação artística de Mark Sandman, podemos traçar um paralelo entre duas belas histórias de vida.
Primeiro, assim como Frank Sinatra, Sandman passou por aquela experiência comum da primeira metade do século XX – o momento em que o pai de família lhe dá duas opções: ou arrume um emprego ou siga seu rumo. Sandman escolheu a segunda opção. Mas diferente de Sinatra, que pegou sua mala e foi direto para Nova York bater em todas as possíveis portas de gravadoras, preferiu um caminho mais espiritual.
Muito parecido também com o caminho trilhado por Christopher McCandless, o jovem que inspirou o filme Na Natureza Selvagem, dirigido por Sean Penn, Sandman vagou por regiões diversas, inclusive chegou ao Alasca, trabalhando profissionalmente como pescador por um ano. Por volta de 1972, era cozinheiro num barco de pesca. Resolveu descer sentido América do Sul, até perder seu passaporte em Machu Picchu, no Peru. Onde arrumou um emprego relacionado a colher cogumelos e cultivar maconha.
Após ficar doente no Brasil, voltou para os EUA e começou a tocar em diversas bandas. Lançou três discos com seu grupo de blues chamado Treat Her Right. Inegavelmente, trataram muito bem o blues.
Em 1989, em Boston, Massachusetts, Sandman inovou em um processo de rock com jazz, em que ele cantava e tocava um baixo slide de apenas duas cordas, acompanhado de Dana Colley no sax barítono e do baterista Billy Conway: Eis a implacável formação do Morphine.

Best of Morphine

Não faço uma escolha racional quando decido escrever um artigo, também não pretendo me aprofundar nas ressalvas que tenho quanto a noção de livre-arbítrio. Meus padrões intuitivos, tanto na pesquisa quanto no próprio ato de escrever, são caminhos que desconheço. Quando faço uma analogia entre a jornada espiritual de McCandless e a busca por reconhecimento de Sinatra; sinto que Sandman, como uma antítese do rockstar, conseguiu transitar entre os dois caminhos: o completo desenvolvimento do espírito e o eterno reconhecimento do estilo em seu meio artístico.
Se o grande público ainda não deu o devido valor, isso se deve ao fato de que alguns nascem póstumos. Multidões estão conseguindo enxergar agora o brilho das estrelas que já se foram.
A década de 90 acabou dando espaço para diversas bandas classificadas como rock alternativo. Com o protagonismo da MTV, algumas dessas bandas foram alçadas ao patamar de celebridades mundiais e, em sua maioria, de maneira desproporcional ao talento dos músicos e qualidade das canções.
A fórmula básica era simples: quanto mais os produtores investiam para que um clipe passasse duzentas vezes por dia na emissora, mais o grupo se tornava comercial. Mark Sandman não estava desesperado por sucesso imediato, esse tipo de artista costuma buscar um legado de qualidade permanente.
Percebam o declínio na qualidade dos álbuns da maioria dos grandes nomes – gringos e nacionais – nas décadas de 80 e 90.
Não é o caso do Morphine.

Mesmo gostando de todos os trabalhos desde a formação do Treat Her Right; meu favorito é o The Night, quinto e último álbum de estúdio do Morphine, completado pouco antes da morte súbita de Mark Sandman, em 1999 e lançado em 2000. Fenômeno raro, quando na maioria dos casos os primeiros álbuns são considerados melhores.
Pensem num último álbum impecável. Rope on Fire nos remete à sonoridade do Oriente Médio, enquanto nossas silhuetas estão subindo uma corda em chamas. Souvenir é um sonho rodeado pelos sons do saxofone, ao estilo David Lynch, uma lembrança de nada.
A música tema do The Night é uma obra de arte. A poesia perfeita na melodia perfeita. Inclusive, Sandman costumava ser muito inspirado nas faixas temas. Like Swimming, por exemplo, é minha faixa favorita do quarto álbum e Cure for Pain é a pérola do segundo.
Caso você já tenha circulado pelos bastidores de grandes eventos musicais, provavelmente sentiu uma profunda decepção ao descobrir que seu ídolo não passava de um bebê chorão.
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Falando da cena rock and roll dos anos 80/90, encontramos um oceano de pivetes iletrados, com suas bandas de garagem e suas roupas ridículas, convencidos de que seriam as maiores descobertas da indústria musical.
Sempre fui defensor do ego no meio artístico. Com certeza estamos falando de um dos meios onde se faz necessária uma crença surreal em si mesmo. Porém, é preciso dominar o ego, a fim de evitar papéis patéticos e vexames na carreira, vejam o caso Eddie Van Halen, por exemplo.
Uma das regras de Mark Sandman, desde os primórdios da sua banda de blues, era que nenhum dos músicos levassem aos shows mais instrumentos do que seriam capazes de carregar.

Se recusaram a interpretar a madame travestida, que desce de seu luxuoso automóvel, enquanto suas mucamas carregam seus equipamentos.
Josh Homme, produtor e fundador do grupo Queens of the Stone Age, definiu sua visão sobre Sandman: “Ele parecia um homem de verdade.”
O fato de Sandman estar exatamente onde deveria – tão ciente de suas capacidades ao ponto de construir seus instrumentos – sabendo que sua música era muito boa e seu público seletivo e excepcional (Ben Harper sabe muito bem do que estou falando) fazia com que sua figura fosse um mistério, um artista fora de contexto. Se não tivesse falecido precocemente, tendo uma parada cardíaca no palco, durante uma apresentação na Palestrina, numa fatalidade sem excessos, certamente hoje seria um dos músicos mais influentes do rock.

Vapors of Morphine

Vapors of Morphine por Lisa Deupree
(Foto: Vapors of Morphine por Lisa Deupree / Site: www.vaporsofmorphine.com)

A banda Vapors of Morphine foi fundada em 2009 pelos membros remanescentes do Morphine, com a intenção de manter a chama ou os vapores do incêndio que a breve passagem de Mark Sandman provocou.
Em 2014, se apresentaram no Largo da Batata, no bairro de Pinheiros, dentro da programação da 8ª edição do Mês da Cultura Independente.
No dia 20 de setembro de 2017, se apresentaram no Cine Joia, o show de abertura foi do quarteto paulistano Hierofante Púrpura, som psicodélico de altíssima qualidade. Fiquei sabendo dessa apresentação pouco depois de ter acontecido, mas pude ver Vapors of Morphine em pinheiros, além de acompanhar algumas sonoridades recentes.
Eles estão mantendo a pegada com dignidade, as duas vozes se encaixam perfeitamente como nos tempos de Sandman, o estilo vocal permanece intacto com algumas levadas instrumentais mais pro rock progressivo.
Outro detalhe de respeito ao legado de Sandman, além de buscarem uma “substituição” à altura, foi o cuidado com a mudança no nome da banda.
Vapors of Morphine não somente herdou a musicalidade, como também a classe e a grandeza de espírito.

 

Henrique Maranhão é roteirista, escritor e produtor musical.

 

Referências Bibliográficas

Cure for Pain – The Mark Sandman Story (2011).

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canal do Rock. **
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Free Jazz: o som que nasceu do sangue nas ruas

Free Jazz: o som que nasceu do sangue nas ruas
(por Henrique Maranhão)

“Durmo sozinho, com algumas precauções: uma cadeira travando a porta, se alguém abrir a janela, uma corda derruba um vaso da penteadeira e eu acordo, debaixo do travesseiro está a pistola, e no lugar da minha mulher, um taco de beisebol.” Provavelmente você já viu cenas como essa em algum filme do Scorsese, mas eu garanto que esse estilo de vida era comum entre os músicos de jazz durante a década de 1960, principalmente os jazzistas de apoio, pouco conhecidos, esses costumavam andar em grupos para tocar nos clubes; corriam o risco de morrer todos os dias, pelas mãos da polícia, da Ku Klux Klan e outros bandos racistas. Tentativas de linchamento faziam parte da normalidade.

Após uma apurada audição de diversos discos, passei a concordar plenamente com Wu Ming 1, autor do brilhante New Thing: não da pra aguentar o cool.

Como o escritor define: “O noneto de Miles Davis pode ser, mas as coisas da Costa Oeste, Chet Baker… Dave Brubeck! Eu não via a hora que aquilo terminasse.” O free jazz surgiu no fim dos anos 50, se solidificando como estilo após se tornar título de um álbum de Ornette Coleman, mas para os autênticos arquitetos dessa nova onda, rótulos era coisa de branco. Eles criticavam até a palavra jazz, para eles era “a música” e ponto final.

Coltrane acabou com a raça do jazz nutella da Costa Oeste.

No trecho seguinte, veremos com exatidão como Wu Ming 1 detalha  o terreno em que estamos pisando.

A nova música, no início, era assim: o sax de Ornette e o trompete de Don Cherry eram os cães, seguravam a música pela guia. Prestando atenção, você ouvia o bop, ouvia Bird, Monk e Miles, e mais pra trás ouvia Duke com toda a Basin Street, o gospel das igrejas batistas, o blues do Delta, o pacto com o diabo de Robert Johnson, os respingos de saliva da gaita de Sonny Boy… Mais pra trás ainda, você houvia a escravidão, o último rufar do tambor antes que o seu antepassado fosse jogado num navio, ouvia os pretos putos da vida…

1957 é o ano do “despertar espiritual” de John Coltrane, ele acaba se afundando na heroína e é expulso da banda por Miles Davis. Coltrane decide encarar a abstinência trancado em um quarto na Filadélfia. Depois vai para Nova York, grava com Thelonious Monk e começa a tocar no Five Spot.

Claro que o processo de desintoxicação é bem demorado. Já passei por cinco internações e posso afirmar: um processo de reconstrução humana e artística é bem demorado. Coltrane foi rápido e forte o suficiente para em 1965 se tornar um deus. Com A Love Supreme, o cara ganhou uma enxurrada de prêmios: disco do ano; melhor sax tenor do ano; jazzista do ano e a porra toda. Wu Ming 1 recorda que “na conceituada revista Chronicler, recebeu até o primeiro lugar entre os ‘maratonistas do jazz’, conseguindo tocar dez horas sem parar.”

(Trailer do documentário “Chasing Trane: The John Coltrane Documentary”, escrito e dirigido por John Scheinfeld)

Estamos falando de grandes nomes, mas é preciso ressaltar que muitos outros possíveis grandes nomes, músicos brilhantes, os melhores pianistas em atividade viveram e morreram completamente fodidos. Discriminados por serem negros e explorados como artistas. E mesmo os maiores nomes ainda estão renegados, sem nenhuma memória na história, por exemplo, do cinema americano. O filme sobre Johnny Cash ganhou um Oscar, mas alguém aqui já ouviu falar ou assistiu uma merecida produção cinematográfica sobre Billie Holiday, Duke Ellington ou Count Basie?

Obviamente você já percebeu que este texto não reproduz a famigerada narrativa de vitimização, muito menos de lacração. Estou estancando o sangue de um dos estilos mais marginalizados na indústria musical.

Faço questão de situar este artigo em alguns acontecimentos históricos:

Em um período bem próximo no espaço-tempo, Miles Davis estava tomando porrada de policiais brancos na entrada de um clube. Muhammad Ali se recusava a ir pro Vietnã e Martin Luther King fazia seu famoso discurso contra a guerra em uma igreja no Harlem…

Em determinado momento, na Califórnia, Huey P. Newton e Bobby Seale fundavam o Black Panther Party, com um programa que incluía autodefesa contra a brutalidade da polícia, emprego, moradias decentes e alimentação para as comunidades negras completamente à margem do Estado.

Em 1969, o chefe do FBI, J. Edgar Hoover declara ao New York Times que os Panteras Negras são “a maior ameaça à segurança interna do país”. Quando entra em ação um programa do governo chamado Cointelpro (Counterintelligence Program), que havia sido montado nos anos 50 pra neutralizar o Partido Comunista, depois foi usado contra a Nova Esquerda e teve seu auge contra os movimentos negros pelos direitos civis.

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Com a prisão das principais lideranças do Panteras, estouram revoltas nos guetos negros de todo o país. Nesse período morrem John Coltrane, Otis Redding, entre outros. O número de ativistas negros mortos pelos racistas já era consideravelmente alto antes que o FBI começasse matar.

Infiltraram agentes em todos os principais grupos de resistência. Um dos guarda-costas de Malcolm X era agente infiltrado. Havia tantos agentes disfarçados em tantos movimentos, que era comum um agente do governo assassinar outro agente sem saber que estavam do mesmo lado. Parece roteiro do Tarantino, mas a vasta documentação do Cointelpro está mais para a imaginação de Stephen King ou dos principais roteiristas de terror.

Onde entra o fascismo nessa história? Fascismo representa uma luta contra o caos. Eles buscam a ordem em tudo, inclusive nas artes. Sempre tentaram deter gente como Coltrane e outros artistas considerados subversivos.

Talvez nos dias atuais, onde a vigilância e o controle social ganharam contornos de ficção científica e racistas voltaram a desfilar imponentes nas ruas – existam artistas, jornalistas, ativistas dormindo com uma cadeira travando a porta; se alguém tentar abrir a janela, um sensor de movimento do Iphone dispara um alarme; debaixo do travesseiro uma pistola; e no lugar da mulher, a certeza de ter feito Backup e dos dados estarem em segurança. Quando a privacidade é hackeada , transformamos travesseiros em nuvens.

 

A fusão definitiva para além do Jazz

 

Em agosto de 1969, Miles Davis reuniu um grupo muito talentoso de músicos e decidiu unir o jazz a elementos africanos, como o blues, o funk e um certo tempero latino. Assim nasceu um dos discos mais influentes e polêmicos da história da música. Bitches Brew (que alcançou o top 10 norte-americano vendendo mais de 500 mil cópias) seria responsável pelo nascimento de um novo estilo de jazz, o fusion, que acabou se tornando uma das principais influências do rock progressivo da primeira metade da década de 1970.

Atualmente, Iggy Pop revelou uma lista com os 12 álbuns mais importantes e influentes em sua extensa carreira musical, um dos maiores ícones do rock citou The Complete Hot Five and Hot Seven Recordings, Vol. 1 de Louis Armstrong e The Heavyweight Champion de John Coltrane.

Poderia me estender com inúmeras histórias de como esses visionários do jazz foram fundamentais nos trabalhos de grandes personalidades. Poderia falar da brilhante parceria de Ornette Coleman com William S. Burroughs, na composição da trilha do filme inspirado no clássico Naked Lunch (Grove Press, 1959).


(Ornette Coleman, William S.Burroughs & Brion Gysin (1983)

Quem, assim como eu, teve o prazer de ouvir e até mesmo tocar com Lanny Gordin, sabe muito bem que seu experimentalismo na guitarra tem fortes influências jazzísticas e progressivas. Gordin é considerado um mestre pelos maiores guitarristas do rock nacional. Se eu for escrever sobre todos os álbuns de artistas em que ele tocou e produziu, esse texto não vai ter fim.

Quando lembro das vezes em que assisti esses arquitetos da MPB tocando em bares esfumaçados, Lanny Gordin tocando no antigo Teta Jazz Bar, em Pinheiros, a sensação que se tem é que quem domina o jazz pode produzir um grande álbum de qualquer estilo musical. Quem tiver interesse em saber como está a produção artística atual de Lanny Gordin, recomendo o documentário Inaudito, dirigido por Gregorio Gananian.

Quem, assim como eu, teve o prazer de ouvir o baterista Gigante Brasil, principalmente na fase final de sua carreia, quando tocava no Ventania Bar, em Moema, sabe muito bem que, além de ser um dos principais nomes do movimento Vanguarda Paulista, estamos falando de um baterista de Jazz completamente raíz que tocou com grandes nomes da MPB: recebeu uma enorme exposição ao participar do disco e dos shows do álbum Mais, um dos melhores trabalhos de Marisa Monte. Sobre seu talento, a revista Rolling Stone Brasil declarou: “Preciso, ele era certeza de uma cozinha perfeita em qualquer show e disco que participasse: tinha ‘trovões nas mãos’ e segurava perfeitamente tanto uma sessão de improviso ou quando fornecia a leve cama para o brilho de um intérprete.”

Meu amigo e parceiro de composições Sander Mecca, teve a ousadia de registrar uma versão da música No Quarter, do Led Zeppelin, dividindo o palco com Gigante Brasil e seu grupo Abandonada. Uma preciosa fusão de rock com jazz que você pode encontrar no youtube.

Nos créditos finais de New Thing, referência para a pesquisa deste artigo, o autor Wu Ming 1 descreve uma breve homenagem aos dois livros que foram suas principais inspirações. Ficou encantado com a maneira como foi escrito Please Kill Me: The Uncensored Oral History of Punk, De Legs McNeil e Gillian McCain (Grove Press, New York, 1996). E também Gauleses Irredutíveis. Causos e Atitudes do Rock Gaúcho, de Alisson Ávila, Cristiano Bastos e Eduardo Müller (SagraLuzzatto, Porto Alegre, 2001). Agradecendo aos três autores por terem-no acompanhado em paseios, mostrando a cena rock and roll do Rio Grande do Sul.

 

Henrique Maranhão é roteirista, escritor e produtor musical.

 

Referências Bibliográficas

WU MING 1. New Thing. Conrad Editora, 2008.

 
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canal do Rock. **
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Último Homem em Pé – Jerry Lee Lewis: O selvagem da época de ouro do Rock.

Último Homem em Pé
Jerry Lee Lewis: O selvagem da época de ouro do Rock
(por Henrique Maranhão)

JerryLee Lewis 1973
(Jerry Lee Lewis, 1973, por Klaus Hiltscher, Permissão CC-BY-SA)

“O telefone branco na cabeceira da cama de Elvis tocava. Sua face escura se iluminou, 3h07. Sob a hora, em linhas menores, estava a data, 23 de novembro de 1976. Ele atendeu. Era Robert Loyd, um segurança de Graceland, chamando de um posto de guarda lá embaixo. Problemas.” Assim Nick Tosches inicia uma série de acontecimentos insanos em seu livro Criaturas Flamejantes.

No portão de Graceland, estava Jerry Lee Lewis em seu Lincoln Continental 1976. Portava seu revólver calibre 38. Ignore-o, disse Elvis Presley. Sem dúvidas, uma das decisões mais coerentes que tomou em vida. Jerry Lee foi preso e libertado após pagar fiança de US$ 250. Depois dessa prisão no portão de Graceland, disse a um repórter que lamentava quando a imprensa tratava Elvis como realeza e ele como lixo branco.

Em 29 de setembro de 1976, seu aniversário de 41 anos, Jerry Lee atirou no peito de seu baixista, Norman “Butch” Owens, com uma Magnum 357. Owens sobreviveu e Jerry Lee disse à polícia que pensou que a arma estivesse descarregada. Até 1975, manteve um escritório em Memphis: Jerry Lee Lewis Enterprises Inc; quando em uma noite ele fez 25 buracos de bala na porta de seu escritório com uma 45 automática e foi convidado a se retirar.

Jerry Lee foi responsável pelos dois maiores sucessos da história da Sun Records: Whole Lotta Shakin´Goin´On foi gravada no início de 1957 e lançada em 15 de abril em seu segundo disco. No dia 31 de agosto, chegou ao topo tanto da parada country como da R&B e em setembro chegou ao segundo lugar nas paradas pop. O disco vendeu 6 milhões de cópias pelo mundo. Jerry Lee cantou no American Bandstand; Dick Clarck lembra que ele foi o único convidado que não quis fazer dublagem. “Quando você está fazendo amor, não dá pra voltar e refazer.” Afirma Jerry Lee.

https://youtu.be/RFxRTLmtsbE

Gravada em 1957 e lançada no dia 3 de novembro, Great Balls of Fire chegou ao auge em janeiro de 1958, quando foi ao topo da parada country, ao segundo lugar na parada pop, ao quinto na de R&B e ao primeiro das paradas britânicas. Em 1958, Jerry Lee Lewis estava no auge. “Ele equilibrou as coisas em Memphis. Tornou Elvis aceitável. Jerry Lee sempre fazia merda. Sempre houve uma aura de violência extrema a sua volta. É o maior estilista na música country.” Dispara Nick Tosches.

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John Lennon apareceu no camarim de Jerry Lee no Roxy de Los Angeles; ajoelhou-se e beijou seus pés. Jerry Lee olhou para ver se o brilho do sapato havia sido ofuscado pelo beijo de um menino completamente embriagado de inspirações.

A queda aconteceu em 1958. Chegando na inglaterra, uma tempestade midiática gritava que sua esposa, Myra Gail, era também sua prima de 13 anos. Sua turnê, que incluía apresentações em 27 teatros, acabou sendo cancelada. O casamento de Jerry Lee e Myra Gail durou mais do que o esperado. Se divorciaram em 1970. Ao se divorciar, Myra testemunhou que seu casamento era “um pesadelo”. Jerry Lee foi alertado judicialmente a não mais “ameaçar” sua prima, na época com 26 anos.

Desde o início, Jerry Lee exigia fechar todas as apresentações em que aparecia. Em 1958, Alan Freed insistiu que Lewis tocasse antes de Chuck Berry em um show. Até hoje falam daquele show, de como Jerry Lee fez o público se atirar no palco, de como ele tirou do bolso do casaco uma garrafa de Coca-Cola cheia de líquido inflamável e derramou sobre o piano com uma mão enquanto a outra martelava Whole Lotta Shakin´Goin´On, de como Jerry Lee entrou no camarim pisando firme após incendiar o piano, fedendo fluido de isqueiro e fúria, virou para Chuck Berry e disse calmamente, ao som da molecada gritando para que o palco tremesse novamente: “Continua daí, parceiro”.

Podemos nos sentar confortavelmente na sacada de nossas casas, oferecer um brinde as estrelas, enquanto escutamos os artistas que nos encantam. Acontece que quando uma grande bola de fogo atinge a terra, é impossível sair ileso. Esse tipo de fenômeno está cada vez mais raro. Assim como a lei desenvolve ferramentas, afim de apertar o cerco e evitar que novos casais vaguem pelas estradas ao estilo Bonnie e Clyde. A indústria do entretenimento também desenvolve suas ferramentas, para evitar que uma grande e descontrolada bola de fogo incendeie os corações dos jovens. Por favor, não me confundam: sou um iconoclasta. Não morro de amor incondicional por nenhuma “santidade” e não defendo reis imaginários. Estou sempre pronto para derrubar ídolos, mas quando o assunto é Jerry Lee Lewis, procuro preservar meu martelo. Até porque, não se combate um fogo a marteladas. Também me reservo o direito de não chamar os bombeiros quando se trata de um incêndio tão bonito.

 

Henrique Maranhão é roteirista, escritor e produtor musical.

 

Referências Bibliográficas

TOSCHES, Nick. Criaturas Flamejantes. Conrad Editora, 2006.

TOSCHES, Nick. Hellfire: The Jerry Lee Lewis Story. Norton Books, 1982.

 
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canal do Rock. **
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Rockin’ 1000 = 1000 pessoas e uma música: “Learn to Fly” da banda “Foo Fighters”!

O Projeto Rockin’1000, idealizado pelo italiano Fabio Zaffagnini, reuniu 1000 músicos para pedir um show da banda Foo Fighters na cidade de “Cesena”, na Itália.
No site oficial do projeto, o http://www.rockin1000.com/, estão todos os detalhes do projeto e da produção do vídeo.

O vídeo da música “Learn to Fly”, que foi gravado no dia 26 de julho de 2015, foi liberado ontem, no canal oficial do projeto Rockin’1000, no You Tube. Veja!


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