Último Homem em Pé – Jerry Lee Lewis: O selvagem da época de ouro do Rock.

Último Homem em Pé
Jerry Lee Lewis: O selvagem da época de ouro do Rock
(por Henrique Maranhão)

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(Jerry Lee Lewis, Foto gettyimages por Frank Perry)
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“O telefone branco na cabeceira da cama de Elvis tocava. Sua face escura se iluminou, 3h07. Sob a hora, em linhas menores, estava a data, 23 de novembro de 1976. Ele atendeu. Era Robert Loyd, um segurança de Graceland, chamando de um posto de guarda lá embaixo. Problemas.” Assim Nick Tosches inicia uma série de acontecimentos insanos em seu livro Criaturas Flamejantes.

No portão de Graceland, estava Jerry Lee Lewis em seu Lincoln Continental 1976. Portava seu revólver calibre 38. Ignore-o, disse Elvis Presley. Sem dúvidas, uma das decisões mais coerentes que tomou em vida. Jerry Lee foi preso e libertado após pagar fiança de US$ 250. Depois dessa prisão no portão de Graceland, disse a um repórter que lamentava quando a imprensa tratava Elvis como realeza e ele como lixo branco.

Em 29 de setembro de 1976, seu aniversário de 41 anos, Jerry Lee atirou no peito de seu baixista, Norman “Butch” Owens, com uma Magnum 357. Owens sobreviveu e Jerry Lee disse à polícia que pensou que a arma estivesse descarregada. Até 1975, manteve um escritório em Memphis: Jerry Lee Lewis Enterprises Inc; quando em uma noite ele fez 25 buracos de bala na porta de seu escritório com uma 45 automática, sendo convidado a retirar o seu empreendimento do prédio.

Jerry Lee foi responsável pelos dois maiores sucessos da história da Sun Records:

Whole Lotta Shakin´Goin´On foi lançada em 1957 em seu segundo disco. No dia 31 de agosto, chegou ao topo tanto da parada country como da R&B; e em setembro chegou ao segundo lugar nas paradas pop. O disco vendeu 6 milhões de cópias pelo mundo.

Gravada em 1957, Great Balls of Fire chegou ao auge em janeiro de 1958, quando foi ao topo da parada country, ao segundo lugar na parada pop, ao quinto na de R&B, e ao primeiro das paradas britânicas.
Em 1958, Jerry Lee Lewis estava no auge. De acordo com Nick Tosches: “Ele equilibrou as coisas em Memphis. Tornou Elvis aceitável. Jerry Lee sempre fazia merda. Sempre houve uma aura de violência extrema à sua volta. É o maior estilista na música country.”
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John Lennon se ajoelhou e beijou os pés de Jerry Lee, no camarim do Roxy de Los Angeles.

A queda aconteceu ainda em 1958, quando o guerreiro selvagem da época de ouro do rock resolveu se casar com sua prima, Myra Gail, de apenas 13 anos. A revolta da mídia e do populacho foi fulminante, e sua turnê inglesa, que incluía apresentações em 27 teatros, acabou sendo cancelada. Se divorciaram em 1970. Ao se divorciar, Myra testemunhou que seu casamento era “um pesadelo”. Jerry Lee foi alertado judicialmente a não mais “ameaçar” sua prima, na época com 26 anos.

Como escrever sobre Jerry Lee sem citar a mais famosa cena de bastidores da história do rock, aquela de 1958, que posteriormente inspirou Hendrix a queimar sua guitarra no palco, quando Alan Freed insistiu que Lewis tocasse antes de Chuck Berry. Até hoje falam daquele show, de como Jerry Lee fez o público se atirar no palco; de como ele tirou do bolso do casaco uma garrafa cheia de líquido inflamável e derramou sobre o piano com uma mão, enquanto a outra martelava Whole Lotta Shakin´Goin´On; de como Jerry Lee entrou no camarim pisando firme, após incendiar o piano, fedendo fluido de isqueiro e fúria, virou para Chuck Berry e disse: “Continua daí, nego drama”.

Podemos nos sentar confortavelmente na sacada de nossas casas, oferecer um brinde às estrelas, enquanto escutamos os artistas que nos encantam. Acontece que quando uma grande bola de fogo atinge a terra, é impossível sair ileso. Esse tipo de fenômeno está cada vez mais raro. Assim como a lei desenvolve ferramentas, a fim de apertar o cerco e evitar que novos casais vaguem pelas estradas ao estilo Bonnie e Clyde, a indústria do entretenimento também desenvolve suas ferramentas, para evitar que uma grande bola de fogo incendeie os corações dos jovens – não de maneira tão incontrolável. O cinema comercial nos mostra que é necessário quebrar alguns tabus, desde que apresente uma abordagem inofensiva. Na cinebiografia de Jerry Lee, “Great Balls of Fire”, de 1989, não temos uma única cena onde ele utilize uma arma. Não me confundam: sou um iconoclasta. Não morro de amor incondicional por nenhuma “santidade” e não defendo reis imaginários. Estou sempre pronto para derrubar ídolos, mas quando o assunto é Jerry Lee Lewis, procuro preservar meu martelo. Até porque, não se combate fogo a marteladas. Não se deve chamar os bombeiros quando se trata de um incêndio tão bonito.

 

Henrique Maranhão é roteirista, escritor e produtor musical.

Referências Bibliográficas

TOSCHES, Nick. Criaturas Flamejantes. Conrad Editora, 2006.

TOSCHES, Nick. Hellfire: The Jerry Lee Lewis Story. Norton Books, 1982.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canal do Rock. **
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