Leonard Cohen: Happens to the Heart

Leonard Cohen: Happens to the Heart
(por Henrique Maranhão)

“Elas faziam um lugar secreto em suas vidas ocupadas e ficavam nuas, então se curvavam sobre a cama e me cobriam, como um bebê que tremia.”
Sempre que assisto o clipe da faixa Because Of, do álbum Dear Heather, lembro de uma prostituta de 16 anos, pulando de calcinha e sutiã em cima da cama do hotel. Enquanto eu me drogava, ela correu pra janela, anunciando aos que passavam na rua: Não volto mais naquele puteiro, vou morar com esse cara e dar a minha bunda todo dia pra ele, ele é o meu homem. Quando eu saia do hotel, apenas para buscar mais drogas, passei a ser perseguido por um carro com capangas do dono do puteiro, não é simples roubar o produto mais bonito da vitrine, é um grande risco ser o seu homem.
“Me dê crack e sexo anal, dê-me de volta o muro de Berlim, eu vi o futuro, irmão…”
Quando a névoa do mundo rompeu o limiar e derrubou a ordem imaginária da alma, não me arrependi de absolutamente porra nenhuma.
Quando Liana Friendenbach viu seu grande amor tomando um tiro na cabeça, na escuridão de uma zona rural no Embu-Guaçu, durante o abuso sexual ela já não possuía suas faculdades mentais. Para nós, poetas e sensitivos, que acompanhamos essas histórias próximos demais, só nos resta deixar que uma outra dimensão nos alcance, transformando tudo em música, uma força que te pega pela mão e te leva até o rio, e então podemos ouvir os barcos passando…
Você sabe que ela é meio louca, que eu sou meio louco, mas é por isso mesmo que você quer viajar com a gente, enquanto ela te alimenta com chá e laranjas que vieram da China. Eu estava lá. Eu toquei o seu corpo perfeito com a minha mente. E, através da música, te salvei do terror, resgatei sua consciência enquanto seu corpo estava em estado de choque.
Dear, Leonard. Compositor refinado que não teve escolha e possuía conhecimentos profundos, ao ponto de saber, muito bem, que não existe livre-arbítrio. Simplesmente desenvolveu uma voz de ouro, e vinte e sete anjos do além o deixaram amarrado em uma bela mesa, no ponto mais alto da torre da canção.
Suas poesias sempre estiveram relacionadas a imagens que, ao mesmo tempo marcantes, vão se desfazendo lentamente. Como declarações feitas na areia da praia, ou como amantes desenhando em vidraças embaçadas nos chuveiros. Uma força que muda sua direção e ao mesmo tempo se despede, não deixando rastros para um possível retorno de si mesmo.
Suas melodias estavam na trilha de um filme de Oliver Stone. Mais tarde, enquanto trabalhava na tradicional locadora 2001, reencontrei Cohen em diversos longas da minha pesquisa cinematográfica, como em Onde os homens são homens (1971), de Robert Altman; em Caro Diário (1993), de Nanni Moretti; Fata Morgana (1971), de Werner Herzog; em Breaking the Waves (1996), de Lars von Trier…

 Foto: Leonard Cohen por Govert de Roos . (Facebook)

Cohen foi homenageado por diversos artistas.
Destaco a versão do R.E.M. para First we take Manhattan, uma sombria melodia ao estilo das trilhas de Ridley Scott, nos anos 80; Joe Cocker também fez uma boa versão dessa faixa, além de regravar Bird on a Wire.
Nick Cave assumiu sua religiosidade fazendo várias versões, inclusive um ótimo cover de Suzanne; mas ainda prefiro na voz de Nina Simone, que conseguiu dar o swing perfeito a uma canção extremamente melancólica.
Roberta Flack fez uma versão brilhante de Hey, That’s No Way To Say Goodbye. A regravação instrumental de Anna Calvi para Joan of Arc é belíssima, temos Pixies interpretando I can’t forget. Lover Lover Lover na voz de Ian McCulloch, vocalista do Echo & the Bunnymen, e claro, a excepcional versão de My Secret Life por Eric Burdon, numa levada que lembra as melhores canções de Van Morrison. O alcance de Cohen atravessa diversas gerações.
Antes de Jeff Buckley tornar Hallelujah popular, a faixa já havia conquistado o coração de Bob Dylan. Embora Dylan tenha afirmado que “suas canções cada vez se parecem mais com orações”, ainda não ouvi poesia mais profana que The Future; temos uma versão folk de Teddy Thompson, com metais precisos e vocal honesto, mas ainda prefiro Erlend Ropstad & The Salmon Smokers, em um tributo de altíssima qualidade, de 2017, que também teve uma linda interpretação de Aurora para Famous Blue Raincoat, letra maravilhosa em forma de carta, assinada no fim da canção, regravada, também, por Tori Amos.
Enquanto David Gilmour divulga as poesias de sua mulher Polly Samson, não toca músicas próprias, apenas Cohen em voz e violão.

 Foto: Leonard Cohen por Oliver Morris . (Facebook)

Nascido em 21 de Setembro de 1934, numa família judaica, Leonard Cohen resolveu se dedicar à música após os 30 anos, quando já era um escritor consagrado. Quando pensamos em imagens que, ao mesmo tempo marcantes, vão se desfazendo lentamente, podemos incluir datas e noções de tempo. As marcas deixadas pela poesia de Cohen em minha construção artística são mais antigas do que posso recordar.
Quanto mais amadureço mais minhas composições ganham contornos de Cohen, tanto melodicamente quando na estrutura poética. Quando encontro palavras que definem as nuances das minhas experiências, descubro canções dele com melhores traduções. Death of a Ladies’ Man, lançado em 1977, meu álbum favorito, simplesmente uma obra de arte. Com faixas que lembram os clássicos de Dean Martin, o disco perfeito para afastar pensamentos negativos em finais de ano solitários. Conseguir encostar a orelha contra as finas paredes do hotel, escutar a mulher amada com outro e não enlouquecer de ciúmes, pelo contrário, ser capaz de tirar um fardo de sua alma, ao ouvir que o amor está completamente fora do seu controle. E na próxima música, dançar com uma garota loira e alta no canto mais escuro do ginásio, encharcados de balões e serpentinas, pensando que em momentos solenes como esse é preciso colocar a sua verdade e toda sua fé para vê-la completamente nua.
Iodine é a grande faixa do álbum Death of a Ladies’ Man, com metais perfeitos que te enchem de esperança; mesmo quando os beijos, toques e tudo em um relacionamento está tomado por chamas de iodo. Poesia pura.

Foto: Capa do álbum Death of a Ladies’ Man – Eva LaPierre, Leonard Cohen e Suzanne Elrod

Poderíamos analisar o impacto, tanto na vida quanto na obra, quando se é criado em uma casa de mulheres; isso aliado ao fato de que na escola de Cohen, meninos e meninas ficavam em partes separadas, sem qualquer tipo de interação. Eu também estava lá. Me encontrando, de forma apaixonada, através de cartas proibidas, aos beijos nos corredores das clínicas de recuperação, quase pude ver o corpo dela nu; mais uma vez, fui obrigado a tocar seu corpo perfeito com a minha mente.
Leonard Cohen era visto, por amigos, como um cara de sorte, por viver em uma casa com a mãe e a irmã; enquanto grande parte dos meninos reclamavam da falta de mulheres, Cohen possuía essa “vantagem” e era considerado o cara um pouco avançado nos conhecimentos sobre os mistérios femininos. No início da adolescência, Cohen adquiriu profundo interesse pela hipnose, chegando a estudar um livro com diversas técnicas sobre o tema. Mais tarde, confessou que utilizou a empregada como primeira cobaia e, através do transe, fez com que ela tirasse a roupa. Se ela tirou por hipnose ou porque quis, jamais saberemos. Mas temos um pequeno registro de onde começou a surgir sua voz calma e pausada, onde em muitas faixas acaba soletrando sílaba por sílaba, buscando levar o ouvinte a um determinado tipo de transe, ele não canta pra você pular em um estádio, ele canta para que elas tirem a roupa.
Em 1994, chegando ao auge de sua aproximação com o budismo, Cohen passa a viver no mosteiro de Mount Baldy Zen Center, próximo de Los Angeles. Em 1996, ganhou o status de monge zen, e ganharia o nome Dharma de Jikan, significado de “silencioso”. Como todo monge budista, Cohen sempre soube o valor do silêncio para que as palavras e a música soem com perfeição. Resolveu abandonar a sociedade para se tornar monge, possuía uma bela fortuna, na casa dos milhões de dólares. Foi então que uma amante com quem Cohen manteve relações por décadas, e que acabou ocupando o posto de sua contadora, resolveu roubar sua fortuna. Falido, se viu obrigado a retomar a carreira.
Eu também estava lá, meditando em um templo budista, tendo que voltar ao rock and roll por causa de uma vadia oportunista. Você quer mais escuridão, nós apagamos a chama.
“Eu deveria ter visto que isso iria acontecer, só de olhar para ela era um problema, um problema desde o início, claro que interpretamos um casal deslumbrante, mas eu nunca gostei do papel. Não é bonito, não é sutil o que acontece com o coração”.

Foto: Capa do álbum póstumo de Leonard Cohen, “Thanks for the Dance”, lançado em 2019.

Henrique Maranhão é roteirista, escritor e produtor musical.

Referências Bibliográficas
SIMMONS, Sylvie. I´m Your Man. Editora Best Seller Ltda, 2016.
KOPROSKI, Fernando. Atrás das linhas inimigas de meu amor. Viveiros de Castro Editora Ltda, 2016.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canal do Rock. **
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